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Urticária Infantil

Manchas vermelhas, elevadas e com muita coceira que aparecem do nada e mudam de lugar pelo corpo têm nome: urticária. É uma das queixas mais comuns em consultas de alergia e, na maioria das vezes, tem boa resposta ao tratamento — mas quando vem com inchaço ou falta de ar, pode ser emergência.

Por Dr. Bruno William Lopes de Almeida — CRM-SP 222528 · RQE 1406541 · Alergia e Imunologia Pediátrica (UNIFESP) · Atualizado em 6 de agosto de 2026

O que é urticária

Urticária é uma reação da pele caracterizada pelo surgimento de urticas — placas avermelhadas ou da cor da pele, elevadas, muito pruriginosas, de tamanho e formato variáveis, cercadas por uma área de vermelhidão. A marca registrada da urticária é ser fugaz: cada lesão individual costuma durar poucas horas e desaparecer sem deixar marca, mesmo que novas lesões continuem surgindo em outros lugares do corpo ao longo do dia.

É uma das queixas dermatológicas mais frequentes em consultas de alergia e pediatria. Estima-se que até 20% da população geral apresente ao menos um episódio de urticária aguda ao longo da vida, segundo as diretrizes internacionais de referência (EAACI/GA²LEN/EuroGuiDerm/APAAACI, 2022).

A urticária pode vir acompanhada de angioedema: um inchaço mais profundo da pele ou das mucosas, que atinge lábios, pálpebras, mãos, pés ou genitais, geralmente sem coceira intensa (mais sensação de tensão ou dor) e que demora um pouco mais para desaparecer.

Urticária aguda x crônica

A classificação por tempo de duração é o que orienta toda a investigação e o tratamento:

TipoDuraçãoCausa mais comum em criançaInvestigação de rotina?
Urticária aguda Menos de 6 semanas — a maioria dos episódios dura poucos dias Infecção viral Não — a investigação extensa raramente muda a conduta
Urticária crônica 6 semanas ou mais, com lesões quase diárias Na maioria das vezes, espontânea (sem causa externa identificável) Sim — vale investigar gatilhos e doenças associadas

Um ponto que confunde muitos pais: urticária crônica quase nunca é alergia a um alimento específico. Na maior parte dos casos é espontânea, ligada a mecanismos de autoimunidade da própria pele — por isso dietas de restrição feitas por conta própria raramente ajudam e podem atrasar o diagnóstico correto.

Causas mais comuns em crianças

Na infância, a causa mais frequente da urticária aguda é, disparado, a infecção viral — o mesmo resfriado ou virose que causa febre e coriza pode desencadear as placas na pele, às vezes até depois que os outros sintomas já melhoraram. Outras causas possíveis:

  • Infecções virais (a mais comum) e, com menos frequência, bacterianas
  • Medicamentos, principalmente anti-inflamatórios e antibióticos
  • Alimentos — quando é alergia alimentar verdadeira, a urticária costuma aparecer em minutos após a ingestão, de forma reproduzível
  • Picadas de inseto
  • Urticárias físicas: desencadeadas por frio, calor, pressão, sol, água ou atrito na pele (dermografismo)
  • Aditivos alimentares, em uma parcela menor dos casos
  • Idiopática: em boa parte dos episódios, sobretudo na urticária crônica, nenhuma causa externa é encontrada — o que não significa falha de investigação, é uma característica da doença

Vale reforçar: a maioria dos episódios de urticária aguda na infância não é causada por alergia alimentar. Associar a urticária ao último alimento consumido é um erro comum que leva a restrições alimentares desnecessárias.

Sintomas mais comuns

  • Placas ou pápulas vermelhas e elevadas na pele (urticas)
  • Coceira intensa, geralmente o sintoma mais incômodo
  • Lesões que mudam de lugar e de formato ao longo do dia — cada uma soma poucas horas
  • Em alguns casos, inchaço mais profundo (angioedema), especialmente em lábios, pálpebras, mãos ou pés
Quando é emergência

Procure atendimento de urgência imediatamente se, junto com a urticária, a criança apresentar:

  • Dificuldade para respirar, chiado no peito ou voz rouca
  • Inchaço de língua, garganta ou lábios que progride rápido
  • Vômitos repetidos, dor abdominal intensa ou tontura
  • Palidez, sonolência excessiva ou desmaio
  • Sensação de "aperto" na garganta ou no peito

Essa combinação pode indicar anafilaxia — uma reação alérgica grave e potencialmente fatal, que é situação de pronto-socorro, não de consultório. Depois de estabilizada, a investigação com o alergista é o que ajuda a identificar o gatilho e evitar que se repita.

Como o diagnóstico é feito

O diagnóstico de urticária é clínico: a história contada pelos pais e o exame da pele — muitas vezes por fotos, já que as lesões costumam sumir antes da consulta — são o que mais importam. Na urticária aguda típica, ligada a uma virose recente, geralmente não são necessários exames complementares.

A investigação com exames de sangue, testes cutâneos ou dosagem de IgE específica entra em cena principalmente em duas situações: quando a urticária se torna crônica (6 semanas ou mais) ou quando a história aponta claramente para um gatilho específico, como um alimento ou medicamento associado de forma reproduzível ao aparecimento das lesões.

Pedir bateria ampla de exames em toda criança com um episódio isolado de urticária aguda não é a conduta recomendada pelas diretrizes atuais — na maior parte das vezes não muda o tratamento e pode gerar ansiedade e custo desnecessários para a família.

Sinais de alerta que pedem mais investigação

Nem toda "urticária" é urticária comum. Alguns sinais sugerem outras doenças, como a urticária vasculite, e merecem avaliação mais aprofundada:

  • Lesões individuais que duram mais de 24 horas no mesmo lugar, em vez de sumir e reaparecer em outro ponto
  • Lesões que doem mais do que coçam
  • Lesões que deixam mancha ou hematoma ao desaparecer
  • Febre persistente, dor articular ou outros sintomas sistêmicos associados
  • Episódio de infecção grave (anafilaxia) associado

Tratamento

A base do tratamento da urticária, aguda ou crônica, são os anti-histamínicos de segunda geração (como cetirizina, loratadina ou desloratadina, em dose e formulação adequadas para a idade da criança) — não os de primeira geração (como a hidroxizina), que causam mais sonolência e cuja diretriz atual não recomenda para uso rotineiro.

Quando a dose padrão não controla bem os sintomas, a diretriz internacional (EAACI/GA²LEN/EuroGuiDerm/APAAACI, 2022) prevê aumentar a dose do mesmo anti-histamínico em até 4 vezes antes de considerar o tratamento ineficaz e trocar de estratégia — sempre sob orientação médica, nunca por conta própria.

O corticoide oral tem papel reservado a crises mais intensas, por curtíssimo prazo — não é indicado para uso contínuo na urticária crônica, pelo perfil de efeitos colaterais em uso prolongado.

Além da medicação, identificar e afastar o gatilho (quando ele é identificável) faz parte do tratamento — mas, como a maioria dos casos agudos é viral e a maioria dos crônicos é espontânea, isso nem sempre é possível, e não deve virar motivo para dietas restritivas sem base.

CID-10 da urticária: qual é o código correto

O código exato depende do tipo e da causa identificada (ou não) da urticária. Os mais usados são:

L50.0Urticária alérgica. Quando há um gatilho alérgico identificado (alimento, medicamento).
L50.1Urticária idiopática. Quando não se identifica uma causa externa — comum na crônica.
L50.2Urticária por frio e calor. Uma das formas físicas.
L50.3Urticária dermatográfica. Desencadeada por atrito ou pressão na pele.
L50.9Urticária não especificada. Usado quando o quadro é típico mas sem classificação mais específica registrada.
T78.3Angioedema. Usado quando o inchaço profundo é a manifestação predominante.

Quem define qual código se aplica é o médico que examina a criança durante a crise ou pelo relato detalhado dos pais — o código serve para laudos, atestados escolares e solicitações a convênios, não substitui a avaliação clínica.

Urticária tem cura?

A urticária aguda, ligada a uma infecção viral, costuma se resolver sozinha em poucos dias a poucas semanas, sem deixar sequela. Já a urticária crônica tem curso mais variável: uma parte significativa das crianças apresenta remissão dentro de meses a poucos anos, mas alguns casos podem persistir por mais tempo e exigem acompanhamento e ajuste periódico do tratamento com o especialista.

Quando procurar o especialista

Vale marcar avaliação com alergista pediátrico quando:

  • A urticária dura mais de 6 semanas (crônica)
  • Vem acompanhada de inchaço de lábios, pálpebras ou outras partes do corpo com frequência
  • Não responde ao anti-histamínico na dose habitual
  • Há suspeita clara de gatilho alimentar ou medicamentoso reproduzível
  • Já houve algum episódio com falta de ar, mesmo que tenha passado rápido

E, se houve qualquer sinal de dificuldade para respirar, inchaço de garganta ou desmaio junto com a urticária, a orientação não é esperar a consulta de rotina — é procurar emergência.

Perguntas frequentes

Urticária é contagiosa?

Não. A urticária em si não se transmite de uma criança para outra. Quando a causa é uma infecção viral, é o vírus que pode ser contagioso — a urticária é apenas a reação da pele a ele.

Toda urticária é alergia?

Não. Na maioria das crianças, a urticária aguda está ligada a uma infecção viral, não a uma alergia. Alimentos e medicamentos são responsáveis por uma parte menor dos casos.

Qual o CID-10 da urticária?

Depende da causa e do tipo: L50.0 para urticária alérgica, L50.1 para idiopática, L50.9 quando não especificada, e códigos específicos para as formas físicas, como L50.2 (frio e calor) e L50.3 (dermatográfica). Quando há inchaço mais profundo associado, usa-se também T78.3 (angioedema).

Preciso fazer exame de sangue toda vez que meu filho tem urticária?

Não. Na urticária aguda, a investigação extensa raramente muda a conduta e não costuma ser recomendada. Exames entram em cena principalmente quando a urticária se torna crônica (mais de seis semanas) ou quando há sinais de alerta.

Urticária que não passa com anti-histamínico é normal?

As diretrizes atuais preveem aumentar a dose do anti-histamínico de segunda geração até 4 vezes a dose padrão antes de considerar o tratamento ineficaz. Se mesmo assim não controlar, ou se a urticária já dura mais de seis semanas, é hora de avaliação especializada.

Outras condições que também trato:

Referências científicas

O conteúdo desta página segue as recomendações vigentes das sociedades médicas brasileiras e internacionais:

  1. Zuberbier T, Abdul Latiff AH, Abuzakouk M, et al. The international EAACI/GA²LEN/EuroGuiDerm/APAAACI guideline for the definition, classification, diagnosis, and management of urticaria. Allergy. 2022;77(3):734-766.
  2. Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI). Guia prático de urticária aguda. Arq Asma Alerg Imunol. 2022.
  3. Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10).
Sobre esta página. Conteúdo escrito e revisado por Dr. Bruno William Lopes de Almeida — CRM-SP 222528 · RQE 1406541 (Alergia e Imunologia) · RQE 140654 (Pediatria). Residência em Alergia e Imunologia pela UNIFESP. Última revisão em 6 de agosto de 2026.

Este texto tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. Diante de sinais de emergência descritos acima, procure atendimento médico imediato.

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